Histórico do ecoturismo na Reserva Mamirauá
Texto: Nelissa Peralta
O programa de ecoturismo vem sendo desenvolvido na Reserva Mamirauá desde 1998 e seu principal objetivo é promover a conservação dos recursos naturais e a melhoria da qualidade de vida das populações moradoras da unidade de conservação.
Para atingir tais objetivos, o Programa desenvolveu através dos anos as seguintes ações: pesquisas e estudos de viabilidade para o planejamento turístico, implantação de infra-estrutura de mínimo impacto, promoção da capacitação do pessoal local e sua organização comunitária, geração de benefícios sócio-econômicos para a população e monitoramento ambiental e social para a minimização dos impactos gerados pela atividade (Peralta, 2002).
Os serviços e equipamentos turísticos são oferecidos pela Pousada Uacari, que desde 2001, época da finalização de sua infra-estrutura, recebe os hóspedes que visitam a Reserva Mamirauá. 70% dos turistas são da origem estrangeira. Esta demanda de turistas visita a Reserva Mamirauá devido aos seus atrativos naturais, culturais e científicos. A programação é uma combinação de visitas às trilhas e lagos para observação da fauna, visita às comunidades locais para conhecer e entender o modo de vida das populações locais, visitas às estações de pesquisa, onde os hóspedes podem interagir com pesquisadores locais.
São sete comunidades rurais que participam da atividade de ecoturismo, estas estão situadas na área do Setor Mamirauá, próximas à Pousada Uacari. Os comunitários participam do projeto de ecoturismo de várias formas: na prestação de serviços de hotelaria e condução de visitantes, no gerenciamento da Pousada, nas tomadas de decisão através da Associação de Guias e Auxiliares de Ecoturismo (AAGEMAM), dividindo os excedentes gerados pela atividade, fornecendo produtos para a Pousada, recepcionando turistas nas suas comunidades e vendendo artesanato.
O Programa de ecoturismo não foi idealizado para substituir as atividades produtivas tradicionais como a pesca e a agricultura, mas para ser uma fonte de renda extra para a população local. Para isso, e com o intuito de distribuir ao máximo os benefícios econômicos gerados, a Pousada recebe cerca de 54 trabalhadores que participam de um sistema de rodízio de trabalho, onde são chamados por vez, dependendo do número de turistas. A associação local de prestadores de serviços em ecoturismo – AAGEMAM – constitui a pessoa jurídica contratada para o trabalho na Pousada.
A associação entre a operação turística e as atividades econômicas do local é essencial no sentido de manter as atividades tradicionais e distribuir benefícios econômicos. Em Mamirauá, as atividades que demonstram maior sinergia com o ecoturismo são o artesanato e a agricultura. Os turistas consumem as mercadorias produzidas pelos artesãos locais dentro de suas próprias comunidades. O ecoturismo incentiva a preservação da identidade da população ribeirinha através de ações direcionadas ao ordenamento do intercâmbio e integração entre as populações locais e os turistas visitantes às comunidades.
A população local se mostrou interessada em recepcionar os visitantes dentro das comunidades entendendo que poderia receber benefícios econômicos diretos. A visita à comunidade, se feita de maneira estruturada, com o acompanhamento e controle da população local, pode resultar em benefícios tanto econômicos quanto sócio-culturais. Em Mamirauá as visitas às comunidades foram elaboradas utilizando metodologias participativas para que a população local pudesse identificar as atrações existentes em cada comunidade, segundo sua própria visão de atratividade e estabelecer regras de conduta para os turistas durante estas visitas.
Desde 2002 o empreendimento produz excedentes que são divididos entre as seis comunidades do Setor (50%) e seu sistema de fiscalização comunitária (50%). Neste primeiro ano, as comunidades do setor decidiram dividir em partes iguais os excedentes gerados. A partir de 2003, as comunidades elaboraram normas de conduta, que são utilizadas como critérios de avaliação para determinar o valor que cada comunidade recebe do total dos lucros do empreendimento.
Para participar dos lucros da atividade de ecoturismo, as comunidades locais devem respeitar as normas de conduta do Setor Mamirauá. Foi eleita uma comissão com membros de todas comunidades, que avaliam o desempenho destas em relação às normas de conduta. De acordo com a participação da comunidade, esta recebe um valor percentual do total de lucros. Para ter acesso a este valor, cada comunidade elabora um projeto de desenvolvimento comunitário que é analisado, aprovado e monitorado pela comissão de avaliação. Desde 2002, vários projetos de desenvolvimento comunitário foram aprovados, tais como a construção de centros comunitários, a compra de rádios de comunicação e de embarcações comunitárias.
Em Mamirauá, os benefícios econômicos gerados ao longo de sua implantação foram significativos o bastante para demonstrar a importância da conservação do local. O ecoturismo contribuiu indiretamente para a manutenção de populações naturais de vertebrados como pirarucu, jacarés e onças, como parte de uma estratégia de conservação que inclui fiscalização, educação ambiental e as alternativas econômicas para a população.
De 1999 a 2006, o projeto de ecoturismo gerou cerca de R$ 631.000,00 para as comunidades do Setor Mamirauá. O poder de compra médio por família variou cerca de 148% em uma das comunidades que atua diretamente no projeto de ecoturismo (Peralta, 2005). Grande parte desta renda gerada beneficia as mulheres e os jovens. Os benefícios alcançados no âmbito social também são relevantes. A população local está sendo capacitada participando de vários cursos como primeiros socorros, governança, alimentos e bebidas, condução de roteiros, curso de lideranças. Além disso, devido ao processo de gestão comunitária dos lucros gerados pelo empreendimento a organização das comunidades tem sido fortalecida. Em 2003, a Reserva Mamirauá ganhou o prêmio de Melhor Destino de Ecoturismo (Conde Nast Traveler) e o prêmio de turismo sustentável na categoria conservação (Smithsonian e USTOA). A participação comunitária e as bases científicas têm sido fatores fundamentais no sucesso do projeto.
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